quarta-feira, 18 de junho de 2014

ARTIGO:

O FAZER POÉTICO na "Resma" de Lívio Oliveira *

“Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração”.
Carlos Drummond de Andrade

Atualmente, qualquer pessoa que esteja atenta ao mercado literário local intui que a poesia ainda é a vertente que mais se distingue na literatura potiguar, não apenas pela grande quantidade de poetas, mas, sobretudo pela superior qualidade de alguns, que vêm se destacando há anos, dignos de figurarem numa antologia nacional.
Acredito, eu, por ser leitor e estudante de poesia, que a poesia feita no Rio Grande do Norte continua viva e ativa; organizam-se saraus, leituras de poemas, encontros com poetas, surgem novas revelações poéticas. No entanto, há poetas e poetisas que se sobressaem em meio à avalanche de livros publicados no Estado, dentre estes, Lívio Oliveira, que penso ser o melhor representante masculino da nova geração poética potiguar, neste inicio de século, inclusive com cinco livros de poemas publicados, todos indiscutivelmente de qualidade artística elevada.
Acabo de ler o novo livro dele, “Resma” e é o que vejo de mais atual, inovador e pujante. Entre tantos outros autores, Lívio Oliveira cria seus próprios meios para desenvolver seu projeto literário em poemas que rasgam a alma e o verbo, que se desnudam. O poema “Alguma Vez” é um belo exemplo de como Lívio domina a arte poética. O poeta parece querer aproximar-se de um movimento poético em busca de uma proposta estética também de experimentação e algumas vezes de descompromisso estético , ou seja, sem ideologia ou escola, não ficando preso a regras nem preceitos. Isto é uma característica relevante pois revela a natureza mágica da poesia, demostrando que são infinitas as formas de se abordar o fenômeno poético ,e através do novo o poeta reativa também a tradição e contextualiza a linguagem de certas convenções literárias.
Trata-se de uma poesia que traduz o impasse entre romper com a tradição, e / ou posicionar-se como seguidora de procedimentos típicos das vanguardas , modernismo ou de outros movimentos poéticos.
Todos os dilemas e virtudes da poesia potiguar, que na verdade é poesia brasileira, contemporânea, poderiam ser resumidos no livro “Resma”. Lívio faz experimentações felizes num momento em que parece haver uma certa estagnação em determinados seguimentos da poesia local, quando muitos poetas tem caído na cilada de escrever mais do mesmo.

A poesia de Lívio Oliveira, em alguns momentos, ganha novas configurações, com evidentes traços de deslocamento e afastamento do que se tem escrito na atualidade, evidenciando-se o embate do poeta com a linguagem poética e provocando sentimentos de permanente questionamento metafisico, como no poema “Diálogo”. Pontos também para a concepção gráfica do livro, capa e projetos muito bem elaborados. Na minha opinião, a única baixa do livro é o prefácio, que poderia ser melhor aproveitado. Por fim, uma obra digna de qualquer prateleira, pois a poesia de Lívio Oliveira é universal.

*Thiago Gonzaga é pesquisador da literatura potiguar.
Postado por 101 Livros do RN.

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